Problemas urinários em cães e gatos

Para finalizar o mês de prevenção da doença renal crônica em cães e gatos, vamos um pouco além, abordando também as afecções do trato urinário inferior, que tipicamente acometem os ureteres (canal que leva a urina dos rins até a bexiga), a bexiga urinária, e a uretra (canal que transporta a urina da bexiga até o meio externo).

O mecanismo e os fatores predisponentes que levam à ocorrência de inflamação ou infecção nesses tecidos são distintos entre as duas espécies, cães e gatos. Consequentemente, o foco da pesquisa diagnóstica deve ser diferente e, por isso, a abordagem do tratamento muda também.

Quando um cão é acometido por cistite (inflamação da bexiga urinária), o médico veterinário deve focar sua atenção na possibilidade de que, em casa, esse paciente não esteja eliminando urina na frequência correta. Muitos cães só urinam fora de casa, na rua ou em jardins. Com isso, o excessivo acúmulo de urina na bexiga pode predispor à ocorrência de infecções, formação de cristais, e consequente inflamação do trato urinário inferior. Outros fatores podem participar desse problema, sendo consideradas muitas vezes causas “multifatoriais” para o desenvolvimento da inflamação ou infecção urinária. Por exemplo, podem ocorrer a influência de elementos da dieta, capazes de mudar o pH urinário, que também predispõe à formação de cristais.  Ainda, se o animalzinho apresenta uma baixa ingestão de água ao longo do dia, sua urina tende a ser mais concentrada e frequência urinária tende a ser baixa. Se a urina fica retida por muito tempo no interior da bexiga, os cristais começam a se formar.

Quando o paciente é um felino, algumas características fisiológicas (naturais) dessa espécie precisam ser consideradas para a pesquisa da causa mais provável do problema urinário. As características químicas da urina dos gatos incluem um pH naturalmente mais ácido (ocasionado pela alimentação mais rica em proteínas dessa espécie), se comparada à urina dos cães. Isso, por si só, já dificulta o crescimento bacteriano dentro da bexiga, já que as bactérias não conseguem se desenvolver com facilidade em um meio ácido.

Assim, quando um felino desenvolve problemas urinários, é muito provável que estejamos diante de um quadro somente inflamatório – e não infeccioso. Entretanto, podemos partir desse pressuposto, somente se o felino tem integridade anatômica das vias urinárias, e se ele fisiologicamente ele tem mantido boa concentração urinária. E mesmo assim, essa suspeita precisa ser confirmada através de exames, para que o tratamento seja adequado.
Por outro lado, assim como os cães, gatos podem ser predispostos à formação de cristais na bexiga (causadores de inflamação), se não ingerirem água adequadamente e/ou se encontrarem problemas para a adequada eliminação de urina ao meio externo, em frequência adequada. Nesse aspecto, vale lembrar que, para a espécie felina, é muito importante providenciar liteiras (caixas de areia) em número adequado (o ideal é termos o número de caixas igual ao número de gatos da casa, + 1); com substrato que o felino aceite; e escolhermos locais adequados da casa (calmo, que proporcione privacidade ao felino) para abriga-las. Também, tanto para os cães quanto para os gatos, pode ser providencial o uso de fontes de água corrente, de fácil higienização, como estímulo aos sentidos do Pet para que ele ingira mais água! Ingerindo mais água ao longo do dia, haverá maior produção urinária; maior frequência de micção, e menor tempo de acúmulo de urina na bexiga. Como resultado, teremos menos probabilidade para a formação de cristais!

Outra dica excelente para a maior ingestão de água e produção urinária está na indicação do uso de dietas úmidas, oferecidas sempre em separado da dieta seca, já que grande parte dessa dieta é constituída por água! Ao contrário do que muitos pensam a respeito desse uso, existem alimentos úmidos tanto para cães quanto para gatos (sachês, enlatados) que são alimentos completos, inclusive de qualidade “super premium”, completamente balanceados e… ricos em água!

Cães e gatos, quando acometidos por problemas em vias urinárias inferiores, costumam demonstrar sinais similares. A inflamação na bexiga gera ardor e incômodo (estrangúria), que leva o Pet a urinar mais vezes ao dia (polaquiúria), em volumes muito menores do que o usual. Comumente, também exibem uma postura de dor e podem vocalizar (disúria), durante o ato de micção. É comum observarmos a micção ocorrer em locais inapropriados como em tapetes, no chão da casa e, no caso dos gatos, fora da liteira.
Quando a inflamação é intensa, podemos observar a coloração rosada ou vermelha da urina, que caracteriza a ocorrência de sangramentos da parede interna da bexiga (hematúria). Especialmente em cães, podemos notar um odor mais fétido da urina, característico de um processo infeccioso (bacteriano) ou até mesmo a presença de pus junto da urina (piúria).

Para que o médico veterinário possa direcionar adequadamente o tratamento – já que a causa pode ou não envolver a formação de cristais, pode ou não envolver crescimento de bactérias na urina – é imprescindível que sejam realizados os seguintes exames:

  • Hemograma

O exame de hemograma será capaz de indicar se o paciente vem perdendo sangue significativamente no processo de inflamação; demonstrar a condição imunológica geral do paciente, caso ele precise responder à um processo de infecção; pode inclusive ajudar a demonstrar se um processo infeccioso (bacteriano) importante está presente, recrutando a imunidade sistêmica do paciente.

  • Ultrassom abdominal

O exame de imagem abdominal é muito necessário para detectar ou descartar a presença de cálculos urinários, que muitas vezes se formam a partir do acúmulo de cristais nas vias urinárias. Se o paciente possui cálculos e eles não forem detectados, qualquer tratamento medicamentoso pode ser ineficaz, levando ao uso indiscriminado de medicações cuja indicação precisa, na verdade, sempre ser ponderada, como no caso dos anti-inflamatórios e antibióticos.

  • Urinálise simples

O exame simples de urina é fundamental na triagem diagnóstica da cistite, pois será capaz de detectar a presença de cristais e determinar o seu tipo. Cada tipo de cristal em formação, exige condutas de tratamento diferentes. Além disso, o exame determina se o paciente tem mantido boa concentração e pH urinários, demonstra se está havendo perda de células vermelhas (sangramento) na urina (ainda que microscopicamente), e nos informa se há ou não a presença de crescimento bacteriano na urina – caracterizando o quadro (não somente de inflamação), de infecção urinária.

  • Cultura e Antibiograma da Urina

Esse exame é indicado para todo paciente cuja Urinálise aponta crescimento bacteriano, e é excelente no sentido de evitar o uso incorreto ou indiscriminado de antibióticos. Durante a sua realização, o médico veterinário patologista clínico, no laboratório, irá determinar qual é a bactéria em crescimento na bexiga do seu Pet, e irá testar diversos antibióticos diferentes “in vitro” (no laboratório, sobre a bactéria que cresceu). Assim, o médico veterinário dentro do consultório poderá fazer uma escolha mais assertiva de qual antibiótico utilizar, e por quanto tempo, no caso específico do seu Pet.

Entre cães e gatos (e segundo também o resultado individual de cada exame realizado), o tratamento pode ser muito diferente! Se há infecção bacteriana detectada, há a necessidade de uso de antibióticos, por exemplo. Se não há crescimento bacteriano (como muitas vezes observamos no caso dos gatos), é necessário buscar pelas causas diversas de inflamação, e o uso de antibióticos fica contraindicado. Aliás, gatinhos tendem a desenvolver inflamações urinárias por causas (multifatoriais), estressoras. Sabia disso? Na maioria das vezes, quando se trata da “cistite intersticial felina”, o tratamento primário deve envolver manejo comportamental e ambiental, mais do que medicamentoso!

Por todas essas razões, é tão importante confiar e contar com um médico veterinário para guiar cada passo do que deve ser feito, a partir de uma anamnese, colheita de dados de histórico bem como dados comportamentais, ambientais e de rotina diária. Esses dados, aliado ao exame físico e laboratoriais do seu Pet, determinarão um caminho seguro para o tratamento, e de sucesso!

Se você observa em seu Pet os sinais de disfunção urinária que ensinamos aqui, saiba que a pesquisa diagnóstica deve ser direcionada sempre “caso a caso”, individualmente, com tratamentos estabelecidos para as necessidades pontuais, específicas do seu Pet! E fique feliz, se o seu médico veterinário indicar a realização dos exames mencionados aqui. Isso é sinal de que ele está no caminho certo! No Hospital Veterinário Anima, todos os nossos clínicos seguem a padronização de exames a serem realizados em cada triagem diagnóstica, de modo que possamos alcançar diagnósticos rápidos e precisos, para que os tratamentos sejam cada vez mais específicos e individualizados.